Vivemos um momento em que a formação econômica parece, cada vez mais, se afastar do país em que se realiza. Nas universidades, fala-se em “mercados eficientes”, “equilíbrios gerais” e “otimização de recursos”, enquanto o Brasil real, desigual, periférico e dependente, segue pedindo respostas urgentes que esses modelos abstratos e matemáticos não conseguem oferecer. Essa distância entre teoria e realidade não é nova. Mas nunca foi tão evidente quanto hoje, a crise financeira de 2008 expôs, de forma incontornável, os limites das teorias econômicas dominantes. O colapso dos mercados revelou que o mundo real não se comporta segundo os pressupostos de equilíbrio e racionalidade sobre os quais a economia mainstream se sustenta. É por isso que pensar uma economia nacional e histórica não é apenas um exercício intelectual, mas um compromisso patriótico e político: uma tarefa de construir desenvolvimento sustentável e reduzir as profundas desigualdades que marcam a história do nosso país.”
A economia como fenômeno histórico
A economia não é uma ciência natural. Não há “leis eternas” da oferta e da demanda, assim como não há uma “mão invisível” que organize todos os povos do mesmo modo. O que existe são formas históricas de organizar a produção e a distribuição da riqueza, que variam conforme o tempo, o espaço e as relações de poder. Adam Smith, frequentemente transformado em um ícone do liberalismo, nunca separou a economia da história e moral. Em A Riqueza das Nações, seu objetivo era compreender o progresso da Inglaterra, a partir das instituições, costumes e políticas que moldaram seu desenvolvimento. Do outro lado, Friedrich List, um dos pais do pensamento desenvolvimentista, foi ainda mais direto: não há “economia” em geral, há economias nacionais, cada uma com seu grau de desenvolvimento, sua estrutura produtiva e seus objetivos políticos. Segundo List, o discurso universal do livre-comércio é sempre a ideologia das nações que já alcançaram a industrialização. Ao proclamá-lo, essas potências, na prática, ‘chutam a escada’ para os demais países, impedindo que eles utilizem os mesmos mecanismos e estratégias que lhes permitiram atingir o desenvolvimento e a posição dominante que ocupam no mundo. Esses autores clássicos compreendiam que a economia é sempre política e nacional, porque nasce da vida de um povo concreto.
A abstração neoclássica e o economista sem país
A partir do final do século XIX, a chamada “revolução marginalista” (Jevons, Menger, Walras) transformou profundamente o objeto da economia. Em vez de estudar estruturas produtivas, classes sociais e Estados nacionais, ela passou a tratar de indivíduos isolados que trocam bens em mercados abstratos. O sujeito histórico, o trabalhador, o empresário, o Estado, a nação, desapareceu. O que restou foi o homo economicus, um ser a-histórico e apolítico, que vive num mundo sem fronteiras, sem classes e sem história. Essa mudança não foi neutra: ela correspondeu à maturação do capitalismo liberal e à necessidade de apresentar o mercado como ordem natural, autorregulada e eterna. A economia deixou de ser “política” e se tornou “ciência pura”, perdendo completamente sua dimensão nacional. No Brasil, essa tradição se consolidou de forma particularmente alienante. A economia ensinada nas universidades, sobretudo após as reformas liberais e o avanço da tecnocracia, passou a formar economistas que sabem operar modelos, mas não compreendem o país em que vivem. Maria da Conceição Tavares criticava justamente essa postura: o economista que ignora a justiça social e a realidade das desigualdades estruturais torna-se um tecnocrata, preocupado apenas com cálculos e fórmulas, e não com a transformação do país. Marx, por sua vez, já havia denunciado os economistas vulgares como ideólogos do capitalismo: suas análises não visam compreender a realidade, mas justificar e manter a ordem existente, mesmo quando suas explicações fracassam diante das crises e contradições reais do sistema.
O economista brasileiro e sua tarefa histórica
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Celso Furtado dizia que “o subdesenvolvimento não é uma etapa, é uma criação histórica”. Essa frase resume o ponto crucial: o economista brasileiro não pode se limitar a reproduzir teorias importadas, porque o Brasil não é uma cópia do centro, é uma formação histórica própria, marcada pela dependência, pela desigualdade e pela criatividade popular. Estudar as ciências econômicas no Brasil exige, portanto, reconhecer o caráter singular de nossa estrutura produtiva, de nossas instituições e de nossas contradições. É compreender o papel do Estado como articulador de um projeto nacional; o papel do território e dos recursos naturais; o peso da escravidão e da herança colonial na nossa estrutura de classes; o desafio da industrialização e da soberania tecnológica.
O economista brasileiro precisa ser, antes de tudo, um intérprete do Brasil, alguém capaz de compreender as particularidades históricas, sociais e institucionais que moldam a economia do país. Isso exige diálogo profundo com os autores que refletiram sobre nossa realidade com rigor e compromisso, como Celso Furtado, Ignácio Rangel, Maria da Conceição Tavares, Nelson Werneck Sodré, Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Ruy Mauro Marini, entre outros, cujas análises revelam as contradições estruturais, a dependência econômica e as desigualdades profundas que atravessam nossa sociedade. Entender o Brasil não é apenas aplicar fórmulas matemáticas ou reproduzir modelos importados de centros estrangeiros: é perceber que o desenvolvimento é, antes de tudo, uma decisão política e civilizatória, uma escolha consciente sobre os caminhos que a nação deseja seguir. O crescimento econômico não é um processo automático ou neutro; ele depende de instituições fortes, de políticas de investimento estratégico, da coordenação entre Estado e sociedade e da capacidade de implementar reformas que reduzam desigualdades e ampliem oportunidades. Assim, o economista brasileiro não atua como um técnico isolado, mas como um agente que interpreta a realidade, propõe caminhos e participa da construção de um projeto nacional de desenvolvimento que coloque a soberania, a justiça social e a capacidade produtiva do país no centro de sua ação.
O retorno da economia política
O retorno da economia política significa mais do que resgatar um conceito histórico: é afirmar que a economia deve ser entendida como um fenômeno social, político e histórico, sempre inserido em uma formação concreta de produção e distribuição da riqueza. Falar em “economia nacional e histórica” é, portanto, recuperar o sentido original da Economia Política, que não se limita a abstrações ou fórmulas matemáticas, mas busca compreender as leis sociais que estruturam a vida econômica de um país. Nesse sentido, retomar a proposta de Marx de fazer uma “crítica da economia política” é essencial: é revelar os limites e as ideologias das teorias que apresentam o capitalismo como um destino inevitável e natural, quando na verdade ele é resultado de relações históricas e de decisões sociais. No caso brasileiro, essa tarefa se torna ainda mais urgente: envolve investigar como o capitalismo se desenvolveu entre nós, com suas distorções, desigualdades, dependências e potenciais capacidades produtivas. Para cumprir essa função, o economista não pode se limitar a ser um técnico, um operador de modelos ou mediador de mercados; ele precisa ser um pensador público, capaz de interpretar a realidade nacional, dialogar com a história, propor soluções concretas e contribuir para o desenvolvimento sustentável do país. Nessa perspectiva, a economia volta a ocupar seu papel mais criativo e transformador: um instrumento de projeto nacional, comprometido com a soberania, a justiça social e a capacidade do Brasil de traçar seus próprios caminhos de crescimento e prosperidade.
Conclusão: o economista como intelectual nacional
A economia, quando divorciada da história e da nação, deixa de ser ciência e se transforma em ideologia do status quo, legitimando desigualdades e preservando estruturas de poder alheias ao povo. Mas, quando enraizada no solo concreto do país, ela se transforma em ciência da emancipação, capaz de revelar contradições, orientar escolhas estratégicas e transformar realidades. Ser economista no Brasil, portanto, não é apenas manipular equações ou operar modelos: é compreender a dialética entre dependência e soberania, entre atraso e modernização, entre mercado e Estado; é assumir o compromisso de pensar o país como ele é e como poderia ser. O desenvolvimento não virá de fora; só poderá emergir da capacidade nacional de refletir sobre si mesma, de projetar seu futuro e de atuar para superar desigualdades históricas. Como lembrava Celso Furtado:
“Nenhum povo se desenvolve imitando outro. Desenvolve-se quando descobre dentro de si a sua própria vocação histórica.”
O economista brasileiro, então, não pode se limitar à neutralidade técnica: ele deve ser um agente ativo de transformação, empenhado em construir políticas, projetos e estratégias que realizem o potencial histórico do país. É hora de assumir essa responsabilidade: compreender, propor e lutar por um Brasil soberano, justo e desenvolvido, porque o futuro da nossa nação depende daqueles que ousam pensar em sua própria vocação.