Entre silêncios estratégicos e hipóteses eleitorais, o jogo de 2025 pode estar combinando o aperto com o alívio.

Lula e Galípolo em fotos oficiais: sinal de sintonia ou divergência contida?
Imagem: Reprodução

Gabriel Galípolo segue religiosamente a cartilha de Campos Neto, mesmo após assumir o comando do Banco Central. Ainda assim, nem Lula nem o Ministério da Fazenda vocalizam críticas abertas à política monetária restritiva que se impõe sobre o país. A taxa Selic estratosférica, que já bateu os 15% ao ano, não gerou reações à altura por parte do Planalto. A crítica mais consistente à decisão do último aumento, na quarta-feira da semana passada, restringiu-se a alguns ministros, à FIESP, à CNI, além de entidades e economistas progressistas.

Esse silêncio presidencial ensurdecedor faz pensar: haveria um acordo tácito entre Lula, sua equipe econômica e a atual diretoria do BC? Qual a lógica estratégica por trás da convivência entre uma política fiscal ativa e um arrocho monetário severo no governo Lula 3?

Aperto agora, alívio depois?

O aperto monetário de 2025 pode ter um propósito mais profundo: entregar a inflação no centro da meta até o fim do próximo ano. Se isso ocorrer, os grandes atores econômicos – Faria Lima, instituições financeiras internacionais, o próprio Banco Central e a mídia hegemônica – ficarão sem base para defender uma Selic nos níveis atuais. Pelo contrário, as projeções convergentes do Boletim Focus passariam a apontar para uma redução da taxa básica de juros, o que coincidiria com o calendário eleitoral de 2026.

Daí emerge uma pergunta nem tão óbvia:
Se a economia brasileira já demonstra resiliência com crescimento médio de 3% no triênio inicial do governo Lula 3, o que poderia ocorrer com uma política monetária menos rígida?

A resposta pode estar na aposta que se desenha no tabuleiro político-econômico: com flexibilização da Selic, o PIB brasileiro poderia crescer entre 3,5% e 4,5% em 2026, impulsionando emprego, renda e consumo, em um ambiente de inflação sob controle. Nesse cenário, a percepção pública sobre o governo melhoraria significativamente, o que pavimentaria o caminho da reeleição.

Trata-se apenas de uma hipótese possível, ou seja;
saco de maldades em 2025, saco de bondades em 2026.


Salvador, 24 de junho de 2025

Adroaldo Quintela
Economista aposentado pelo IPEA
Ex-diretor de Políticas de Desenvolvimento Sustentável na SEDES/SRI/Presidência da República