
Ronald Lobato
Recebi no Boletim da AEPET um artigo do Prado, afirmando que “A globalização acabou e o novo ainda não surgiu”. Concordo com a última afirmação, mas com a primeira não. A segunda afirmação que é o título desta matéria sem a interrogação,me parece com a de que a história acabou. Menos radical, mas similar. Vejamos. A globalização é parte da proposta ideológica partidária do neo-liberalismo, implementada pelo “deep state” dos donos do mundo e alguns países proeminentes.
Defendiam o estado mínimo, agora estado nenhum, para romper os controles sobre lucro, acumulação, danos ambientais etc, uma sociedade oligopolizada. Os resultados no mundo estão aí.Concentração de renda inimaginável, enfraquecimento da democracia, e violência dos países poderosos, principalmente os EUA. Contraditoriamente, estas consequências prejudicaram os povos de todo mundo, não somente os pobres. O povo americano e europeu, também.
Por conta disso um extremista de direita, Donald Trump, que fazia ou faz, parte do neoliberalismo, por oportunismo, adotou uma posição crítica às consequências do neoliberalismo por lá. Esta corrente que fazia e faz parte da frente neoliberal, que não defende a democracia, mas sim a ausência do Estado e não tem pruridos éticos de qualquer natureza, está um pouco desfeita. Aliás, esta situação está levando o capitalismo a um impasse, e talvez, a sua superação. Mas pode levar também a uma hecatombe trágica.
E, portanto, o trumpismo aplica a ideologia fascista, mas é na prática contrário à globalização. E sendo os EUA quem é, isso é muito importante. Este fator no curto, médio prazo, enfraquece os donos do mundo. As “bigtecs” e as duas dúzias de aglomerados econômico financeiros que oligopolizam quase tudo. Por outro lado, temos novos modos de produção que aproveitando os equívocos doutrinários do socialismo real, incorporaram o uso da economia de mercado para organizar parte da sua produção não estratégica.
Tentando manter os capitalistas fora do controle da sociedade, fato que os descaracteriza como país capitalista. Oxalá consigam. Acompanho a realidade por lá, da forma que nos é possível. Aparentemente, os métodos que garantem a meritocracia têm predominado. Nas pesquisas não se constata a predominância da promoção dos “próximos” e “parentes” típica da “nomenclatura” soviética a partir de Stalin, que levou ao desminguelamento da URSS em 1989/1990. De qualquer forma parece ser uma democracia mais efetiva do que a ocidental e por enquanto convive com um mundo multipolar.
O pós capitalismo vem por aí?
O histórico da esquerda é o de imaginar, nos detalhes a evolução da história dos modos de produção. Isso é idealismo vulgar e resulta em doutrinarismo que dificulta a conquista de corações e mentes e permite que pessoas entendam que soluções piores possam ser aventadas.
É preciso aprofundar com clareza e simplicidade. Mas os partidos de esquerda ou progressistas que chegam ao poder tendem à fisiocracia. Por isso tem que haver um núcleo que pense e milite a favor do pós-capitalismo
Sobre o autor:
Economista pela UFRJ (1966), com vasta atuação no setor público e em planejamento urbano e regional no Brasil e no Chile. Foi Secretário de Planejamento da Bahia (2007–2009) e coordenador da formalização da FIOL no plano viário nacional. Cursou doutorado em Planejamento Territorial na Universidade de Barcelona e atuou como professor na UFBA.